domingo, 28 de março de 2010

Filologia Alternativa

É muito interessante o valor agregado e ao mesmo tempo oculto de certas palavras em nossa realidade. Muitas vezes palavras rigorozamente fora de seu âmbito canônico e mais abrangente têm um significado específico que não compreende de forma óbvia o termo original. Muitas vezes algumas palavras parecem explorar alguma ambiguidade no seu trânsito de sentidos, algo quase subliminar, quase perverso, presente apenas para o olhar mais atento (ou seria o mais displicente?).

'Consumir', além de ser a base para a sustentação de nossa sociedade, o paradigma real do homem moderno, e a verdadeira motivação por trás de toda a nossa ciência e tecnologia, também é corroer até acabar, destruir. 'Consumição' significa inquietação, apreensão, e 'consumar' é terminar, acabar.

'Propriedade'
, reflete, em sim mesma, a importante, recorrente e estúpida união que fazemos de dois conceitos: consumo e identidade. É aquilo que se possui (o que se tem), e ao mesmo tempo algo que se é (característica, particularidade). Há uma referência sobre 'próprio' (o 'self', o 'eu mesmo', 'auto')... e também aos 'bens' (veja aqui o julgamento moralmente maniqueísta e estóico sobre o que é ter algo). A palavra parece querer refletir toda a nossa postura de auto-afirmação da identidade através do consumo, da filiação às marcas, etc.

'Pertinente' seria 'importante', não? Algo que tem propósito? Mas também não remete às relações de pertinência? Quando algo pertence a alguma coisa ou alguém?

'Privado' pode ser algo íntimo, próprio, particular, possuido, ou (e, olha que legal, estamos quase resumindo toda causa e consequência da desigualdade social numa só palavra), simplesmente, aquilo que está faltando para alguém.

'Importância', 'valor', 'capital' (principal, fundamental)... tudo tem um significado extremamente ontológico... e é sinônimo para 'dinheiro', também.

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